Thunão Pereira/Daniel Hack
Ao trote largo do cavalo vai um taura
Laço nos tentos chapéu de aba comprida
Segue o destino de ser mais um peão campeiro
Estampa rude sempre pronto para a lida
É o próprio campo esse senhor dos arreios
Alma de estância, jeito simples, buenachão
Figura altiva n’algum fundão de invernada
Tropeando sonhos pro rodeio de emoção.
(Nas estâncias do Rio Grande,
N’algum fundão de invernada
Há sempre um peão de a cavalo,
Lidando com a bicharada.)
Carrega a marca do Rio Grande no semblante
E toda a força desse caudilho torrão
Apresilhada em seu laço vai a vida
E na ilhapa o seu rude coração.
E sol espia e o campeiro salta cedo
Sabe que a vida vai ao tranco do gateado
A lida espera n’algum fundão de invernada
E o dia vem no seu mouro acinzentado.
Maurinho Monteiro
(Hoje no meu peito tchê,saudade bateu
Bateu a saudade doeu,doeu,doeu)
Minha linda chinoquinha
Minha flor,meu bem querer
Há muito tempo prendinha
Eu preciso te dizer
Por viver longe de ti
A saudade me faz sofrer
Quem diz que homem não chora
Desconhece a verdade
Eu já chorei de tristeza
Chorei de felicidade
Hoje distante de ti
Vivo chorando a saudade
Porém vivo na esperança
De poder te encontrar
Eu já cansei de sofrer
Eu já cansei de chorar
Hoje eu mato esta saudade
Ou ela vai me matar
Gilson Rigo/João Sampaio/Pedro Júnior da Fontoura
Sangue de gaucho caliente
Cavalo guapo e valente
Crioulo de lida e guerra
Que Mendoza introduziu
E in natura evoluiu
Pra ser brasão desta terra!
Vindo de allá de Corrientes
Barro de dois continentes
E sóis e luas na estampa
Com o gaúcho e paisagem
Fundiu-se a mais linda imagem
Que Deus pintou nesta pampa!
(E aqui fez querência pra ser o parceiro
Do taura campeiro na guerra e na paz
É a pura essência da gaúcha história
Conquistas e glórias do Rio Grande audaz!)
Garrões-de-potro, boleadeiras
Traçaram nossas fronteiras
Com o sulco de suas patas
Por chapadas e savanas
Brasileiras e castelhanas
Aqui ou no Rio da Prata!
Forjou-se assim nossa raça
Com um laço de doze braças
A espada, a lança e a garrucha
E o amor por este chão
Fez do cavalo a extensão
Da própria alma gaúcha!
João Fontoura/Gujo Teixeira/Marcello Caminha
Um relincho de potro
Um berro de touro
E um cantar de galo.
O rangir de um arreio,
O acôo de um cusco
E o tombo de um pealo .
Um aboio de tropa
Um murmúrio de sanga
Um tinir de argola.
O minuano
as quincha
Um rangir de cancela
E um arrastar de espora
Uma tropa estendida
Uma pega de potro
Um prosear no galpão
Um ronco de mate
E um rufar de patas
Que hace tambores
No couro do chão
Um pontear de guitarra
Um floreio de gaita
Um cantar de fronteira
Um gateado de tiro
Um chapéu bem tapeado
Um adeus na porteira
Esse é o pago que trago
É o Rio Grande antigo
Pois meu verso garante
Essas coisas que digo
(São motivos de campo que carrego comigo
São motivos de campo que carrego comigo.)
José Roberto de Oliveira
Sou do Rio Grande sou da pátria gaúcha.
Viva e “a la pucha”, sou feliz neste chão.
Bem do meu jeito canto amor a esta terra.
Vivo por ela e nossa tradição.
Eu sou mais um dessa raça guerreira
Sou a vanera que toca num galpão
E dessas gaitas do sul sou floreio
Que num rodeio faz bem ao coração.
(Não tenho luxo
Sou do sul do Brasil
Eu sou Gaúcho!)
Éder Goulart/José Atanásio Borges Pinto/Pedro Júnior da Fontoura/James Michel
Abro a janela dos olhos
E descortino a lonjura
E ela ao meu lado jura
Com maior sentimento
Que o nosso mundo é aqui dentro
Que esta aqui nossa aventura.
É aqui nosso universo
O rancho, a vida, o piazedo.
Nosso mundo sem segredo
Nosso jardim, nossa luz.
Sob as bênçãos de Jesus
Não a do que se ter medo.
(Nada, nada distancia.
Mesmo na hora da dor.
Na tristeza ou na alegria,
Se no rancho existe amor.)
Com a janela escancarada
Abro os olhos e ela a casa
Nossas almas batem asas
Em revoadas verdadeiras.
Sem limites, sem fronteiras
Sob um sol que é ferro em brasa.
É na visão do campeiro,
Sempre larga e sempre anda
Que o mundo se agiganta
Nas horas de reclusão
Em que aflora o coração
Todos os mistérios do pampa.
João Fontoura
Nesse tal de mês de outubro
O meu viver anda rubro
Aqui pras bandas do pai-passo.
Já falei pro tio Norato
Hay gado ilhado no mato
Pois deu enchente no passo.
Sou um índio aprevenido
Mas me pegou distraído
Essa chuvarada infame.
E na cruza lá da sanga
A ressaca se fez canga
E arrebentou os arame.
Patrão velho olha pra baixo
Cuida desse pobre macho
Nessa enrascada infinda.
O rancho perdendo a quincha
Do chapéu só tenho a vincha
Pois ando de mal com a vida.
Nessas noites de garoa
Nem a cachorrada acoa
Pra alegrar esse peão.
A lenha só faz fumaça
E ainda por desgraça
To sem cordas no violão.
Tão se terminando os vício
To ficando sem munício
A “cosa” ta ficando osca.
Que miséria passa um “home”
Bate o frio e bate a fome
Começa a apertar a rosca.
O meu pingaço de fé
Também me deixou de a pé
O que é ruim saiu da toca.
Pois bateu um garrotilho
No meu cavalo tordilho
Casco mol e pura broca.
Qualquer índio se achica
To sem milho pra canjica
E sem farinha pra o mingau.
O rio já saiu da caixa
E a sanga que era mais baixa
Lá no passo não da vau.
Mas que baita urucubaca
Tão morrendo “tudo” as vaca
Tão pesteando os meus bagual.
Mas o meu santo não falha
No charque bateram as gralhas
E me limparam o varal
José Roberto de Oliveira
Tu és pra mim...
A luz mais forte que brilha no céu
O meu encanto, meu doce, meu mel
O bem-me-quer que sobrou de uma flor.
O meu amor...
Juro menina guardei só pra ti
O que eu quero é te ter só pra mim
Faça feliz um peão sonhador.
(Menina vem.
Morar comigo e cevar o meu mate
Mas não demore meu bem, não maltrate
Um coração que só diz que te quer.
Menina vem.
Deixar meu rancho mais iluminado
Este peão está apaixonado
Venha menina ser minha mulher)
José Roberto de Oliveira
Fim de semana tá chegando eu tô aceso
É sexta-feira e eu tô bem louco pra farrear
Vai ter fandango e eu conheço dessa lida
Tem mulher bonita e eu quero me entreverar
De pilcha nova e chapéu quebrado na testa
Vou me chegando e conferindo o mulherio
Lá tem pinguancha de tudo que é tipo e porte
Baile cuiudo coisa igual nunca se viu
(E a gaita véia dê-lhe tranco de vanera
E a gaita véia dê-lhe tranco de vanera
E a gaita véia dê-lhe tranco de vanera
Nos braços de uma chinoca
Vou bailar a noite inteira)
De quando em vez dou um tempito no bolicho
Pra que os cambichos me parem de incomodar
Modéstia a parte eu agrado a mulherada
Sou disputado nos fandangos que chegar
E desse jeito vou levando elas no bico
Não é mentira e nunca escondi de ninguém
Posso escolher sempre ficar com quem eu quero
Pra que só loira se a morena quer também!
José Roberto de Oliveira
Foi um temporal que aqui passou,
Ele levou o meu amor.
Agora o coração está morrendo de saudade
Não tenho mais pra quem dizer te amo.
Fiz versos pra compor uma canção
Só deu você minha paixão.
Aquele vento forte mudou tudo de repente
E te levou pra bem longe de mim.
(Vem guria do meu coração
Volte pra mim em uma outra tempestade.
Sem o teu carinho e teu amor não sou nada.
Vem ser minha felicidade.)
Gilson Rigo
Montei no pingo e me bandeei lá pro rincão
Pois hoje a lida foi de lonquear os pelego.
Fui a galope pra chegar mais ligerito
E pra minha nega fui maldoso pra uns achego.
Já dei um “taio” num espeto de costela
Lavei as parte pra mó de utilização.
Puxei um pito e golpeei uma de canha
Que hoje é dia de acaba com as “percisão”.
(Aiaiai, isso nunca aconteceu
Aiaiai, isso nunca aconteceu.
Não fica triste que eu acordo o falecido,
Vou no doutor pra pegar um comprimido
E te mostrar que o véinho não morreu)
A nega véia já se tapa de mutuca,
Vem me dizendo tu tem outra “lá nas tia”
Na minha cancha tu nunca negava brete,
Que tem agora já não serve nem pra cria?
Sei que a mulher também tem suas “percisão”
E de noitinha pega o rumo do povoado
Ela me diz que sai pra rezar por mim,
Só volta tarde com os “joêio” tudo esfolado.
José Roberto de Oliveira
Lá vai o tropeiro seguindo a estrada
Tocando a boiada para algum lugar
Até sua volta são dias de lida
E no rancho a querida ficou a esperar.
Em dias de sol, de chuva ou de frio
Costeando algum rio, cruzando canhadas
Lá vai o tropeiro, cortando caminhos
Pensando na prenda e tocando a boiada.
(Era oh, se vai na estrada
Riscando o nosso rincão.
Era oh, saudades da amada
Carrega em seu coração.)
Lá vai o tropeiro seguindo a estrada
Pensando na prenda e tocando a boiada.
Alexandre de Menezes Leal
Tem bate casco lá no rancho do retoço
Me ajeito e me perfumo pra dançar na tal bailanta.
Encilho o zaino e na guaiaca boto uns cobre,
Hoje não tem china pobre dou de mão numas percanta.
A trote largo, garro o rumo do povoado,
Fandangueiro e atiçado de pinguancha sinto o cheiro
Entro pachola e me oitavo no balcão
Meto uns “gól” de relancina que é pra me achar no entreveiro.
Vi a china que eu queria retoçando pra um moreno
Fui pro lado do candeeiro que é pra ela me avista
No grão dos “óio” da tianga dei um vistaço
Golpeei mais um talagaço pra mó de me encorajar.
(Sou peão de estância e pras gurias cantador,
Não me abalo por cambicho mas vou metendo pavor.)
Teve quem disse tu não chegue de carancho
Que eu não gosto de desfeita e a morena me espera.
Olhei pra fora pra causo algum desaforo
E larguei meu marca-touro nas ventas daquele quera.
Deu rebuliço por causa da tal pinguancha
E o mulato em mim se avança igual touro na invernada
Baixei-lhe o mango igual surro aporreado
Garrei ela e “fumo” a tranco e “varemo” a madrugada.
To com a china que eu queria no meu zaino engarupada
Numa noite enluarada nós se tapando de achego.
Morena lindaça que num cafungo arrepia
Se agrado da minha linha e pousou nos meus pelego.
(Sou peão de estância e pras gurias cantador,
Não me abalo por cambicho mas vou metendo pavor.)
Conexões lentas podem levar a demorar um pouco para começar a tocar a música.
Alexandre de Menezes Leal
Quando chego num bochincho de vereda eu me apincho
Me boleio igual capincho pra o lado da sirigaita
Eu não sou dono do mundo mas penso por um segundo
E já vou cortando quando escuto um som de gaita
(Sou bem campeiro e tenho estilo missioneiro
Pois eu gosto do entreveiro pra dançar no meu rincão
Saibam as prendas que eu sou bom domador
Dou pealos de amor e ganho seu coração)
Quando encilho meu tostado saio troteando de lado
Porque sou um taura afamado e conheço desta lida
Por esse Rio Grande a fora já cortei potro de espora
Se ainda não for minha hora domo muito nesta vida
Quando vou parar rodeio puxo o pingo e boto o arreio
Porque vou com bolso cheio e nada vai me parar
Domo potranca aporreada e chinoca encabulada
Quero arranjar namorada pra no meu rancho pousar
Alexandre de Menezes Leal / Ezequiel Wagner De Toni
Nasci campeiro e me criei no galpão
Junto ao fogo de chão
Sorvendo um mate cedito
Tudo que traço tá nas rodilhas do laço
Isto é um pouco do que faço
Desde os tempos de piazito.
(Se a lida é dura dou um jeito de amansar
Se até redomão ensino e consigo aconselhar
Não me preocupo com potro que corcoveia
Sovéu, mango nas oreia são maneiras de domar)
Cresci ginete por esses pagos a fora
Cortando potros de esporas
Cumprindo minha vocação
Faço da lida um meio de ganhar a vida
E aporreado que duvida
De vereda vai pro chão.
Sempre que posso faço da buena lida
Essência de pampa e vida
Na qual mostro meu valor
São artifícios e andejo de peão de estância
E hoje tenho como herança
A sina de domador.
Dionísio da Costa / Luiz Carlos Lanfredi / Tiago Bisotto Machado
Este som gaúcho que é pura magia
Espalha alegria por onde passar
É a voz da cordeona, campeiro instrumento
Guapo chamamento pra o povo dançar
Renova a saudade de quem foi embora
Pelo mundo afora querendo voltar
Retrata a querência e o seu universo
Emponchando versos pra o taura cantar
(Tem alma de gaita nossa tradição
Tem cheiro de chão, nosso timbre campeiro
Em festa povoeira ou baile pra fora
é marca sonora do sul brasileiro)
Essa querendona, chorona ao falar
Que cruzou o mar ajojada num gringo
Irmana as pessoas, conquista e encanta
Comanda bailanta e alegra domingo
Onde tiver gaita tá feita a festança
Tristeza não dança e logo se muda
Afirma o namoro, redobra a alegria
E é garantia de festa graúda.
José Roberto de Oliveira
Eu nunca vi fandango bom sem vanera
Essa dança que entrevera a gauchada no salão
Ela é dos tempos dos bailes de chão batido
Nascida a toque de gaita, de pandeiro e de violão.
(Marca gaúcha, esse compasso
Que eu não me canso de dançar a noite inteira
Moda campeira dos bailes de rancho
é o nosso tranco e leva o nome de vanera)
Fica bonito ver nosso povo dançaando
Essa moda dos fandangos da fronteira ao litoral
A gaita velha vai roncando a noite inteira
Fazendo subir a poeira num jeitão tradicional.
João Batista de Oliveira
Remoendo velhas lembranças proseio com minha alma
Um palheirito me acalma parceiro de tantas andanças
Amadrinhador da esperança de um tempo que já se foi
Pealando um berro de boi que eu meu peito descansa
Um retrato desgastado traz recuerdos para mim
Parece que ouço os clarins repontando os aporreados
Reculutando do passado um florão de tropilha
Pra se unir aos farroupilhas em colunas lado a lado.
(Que saudade das tropeadas agarradito em um basto
Sentindo cheiro de pasto em longas noites de maio
Alço a perna e então caio lembrando das gineteadas
Em rondas nas madrugadas enforquilhado no baio)
Hoje já sem serventia com as melenas a entordilhar
Queria era poder voltar às lidas do dia-a-dia
Quando o solzito sorria secando o orvalho das folhas
Num pingo da minha escolha ao trotezito saía
Um gaúcho não se entrega nem no dia de sua morte
Sua semente é mais forte reponta junto às macegas
Sua alma não sossega feito ave de rapina
Vagueia sobre as campinas rondando o que não se enxerga.
Ivo Dickmann / Ivânio Dickmann
Tapera velha da beira da estrada
Não precisa falar nada
Somente escuta o que eu digo
Sou peão passageiro
Cansado da tropeada
Em ti faço parada
Outra vez é meu abrigo
Tapera velha teu telhado judiado
De santa-fé ressecado
Contando tua dura história
Já passou por tudo
Neve, ventos e geada
Você resistiu calada
Os intempéries na memória
(Tapera velha tuas portas marcadas
E as janelas quebradas
Das peleias farroupilhas
Mas sempre forte
Continua imponente
Mostrando a nossa gente
Que abrigará outras tropilhas)
Tapera velha nos campos a tua volta
Já houve muitas revoltas
Gado, domas e festança
Hoje quase isolada
A solidão é tua parceira
A pior das companheiras
Só te restam as lembranças
Tapera velha de ti eu me despeço
Só uma coisa eu te peço
Esteja aqui quando eu voltar
Te levo comigo
Neste solitário andejo
De coração eu desejo
Noutra tropeada eu te encontrar.
José Roberto de Oliveira
Toca cavalo vamo embora
Que eu to bem louco de saudade
Chegou a hora de voltar para querência
Distante dela é triste barbaridade
/Num upa-upa campo afora
Bamo simbora bem faceiro
O coração vai repontando ansiedades
Batendo forte pra chegar bem mais ligeiro/.
(Pode esperar querência velha
Hoje resolvi voltar
Por te amar tanto minha terra
To chegando pra ficar)
Final de tarde estou chegando
Com meu parceiro de andanças
Levo nas rédeas toda força da experiência
Na minha mala de garupa só lembranças
José Roberto de Oliveira
Hoje vou lá pro fandango e fandangueiro eu sou
Quero dançar com a morena linda meu amor
Marquei encontro com ela e é pra lá que eu vou
A noite vai ser pequena e hoje eu tô que tô
(Vou para ficar bem mais perto do meu bem
E morena linda te fazer feliz também
Quero teu amor menina do meu coração
Vem dançar comigo quero ser o seu peão)
Passo a semana bem louco pra ver minha flor
Sou peão apaixonado e muito sonhador
Viver sozinho na estância só aumenta a minha dor
Quero casar com essa moça e construir um rancho de amor
José Roberto de Oliveira
Já faz dias que parti
Não agüento a solidão
E a saudade no peito apertando
Vou seguir o pôr-do-sol
E ao meu rancho retornar
Pois lá tem um grande amor me esperando.
/Ela vem me encontrar
Com um sorriso encantador
E uma flor do campo eu levo pra ela
Nada importa pra nós dois
Tudo fica pra depois
Já não agüento mais tanta espera/
(E basta um olhar pra gente se entender
Ela sabe mora em meu coração
No rancho é só paixão
A solidão se foi
As estrelas, o luar e nós dois)
José Roberto de Oliveira
Criado guaxo cresci no meio da farra
Ser bagaceira sempre foi minha vocação
Já corri muito por mexer com china alheia
Já levei tapa na oreia e uns pranchaços de facão.
Culpa da canha que sempre me foi parceira
Essa porquera já não larga mais de mim
Sempre assanhada se atira no meu copo
Então com ela me atraco e acabo ficando assim.
(É num cafungo gurizada num balanço meio torto)
Eu vou dançando e vou bebendo sem parar
Eu tô borracho seu gaiteiro, tô bem loco no entreveiro
E vou levar uma semana pra me achar)
Uns talagaço e a tontura me governa
Torto das perna me equilibro no salão
Ensaio uns passos de vanera na rancheira
E no bugio faço uns agito de magrão.
Pra que dançar com o chinaredo no fandango
Se com a garrafa a sala arrodeia pra mim
É bolicheiro! leva uns pila e dá-lhe canha
Que o baile ta começando e eu vou beber até o fim.
Alexandre de Menezes Leal / Pedro Júnior da Fontoura
De a cavalo que foram cravados
Os marcos em nossas fronteiras
Adagas, garruchas certeiras
Confrontos sangrentos por este chão
Homens distintos em perigo
Mas com instintos para pelear
Levando consigo a nossa bandeira
Em sua defesa sempre a ostentar
(Bendito Rio Grande alçado por guerras
Foi nessa terra marcada por lanças
Batalhas ditadas e vindas de herança
De heróis farroupilhas que eternizou
Bravos guerreiros e uma história
De muitas glórias e sofrimentos
Brados de ordem e telurismo
Do próprio ofício que a pampa criou)
Assim demarcaram nossas divisas
Com punho firme aos ideais
Comando e bravura por mananciais
E um destino que a muitos restou
Tauras destemidos em gritos de amo
Também desesperos por muitas razões
Em tempos de outrora o sangue jorrando
De um romper de espadas das revoluções
Alexandre de Menezes Leal
Levam a vida sobre arreios e cavalos
Pulando cedo sem temer os dias longos
Açoitados pela lida e pelo tempo
São os tropeiros que não receiam assombros
Seguem seus destinos e se vão estrada a fora
Fazendo do ofício o dia-a-dia sobre lombos
(E lá se vai mais uma tropa ao rumo certo
Rondada de perto para não dar entreveiros
Na poeira da estrada, chuva, frio e mormaço
Enfrentando o cansaço lá se vão estes tropeiros)
Pra este serviço é preciso ter coragem
Uma boa encillha e o melhor pingo a confiar
Para não ser um tropeiro desgarrado
Nunca se deixa uma tropa estourar
Sempre em alerta com seu laço em prontidão
Quem escolheu tropeadas tem por sina andejar
Alexandre de Menezes Leal
Tô viciado em vanera hoje não tem brincadeira
Eu vim para dançar
Quero fazer umas graça e uns charme pra morenaça
Pra depois nós se atracar
Dá-lhe cordeona gaiteiro mete embalo no entreveiro
Incendeia o salão
Num baile de redomona foi a vez da gauchona
Me fazê frouxá o garrão
(Sou fandangueiro e meto ficha no farrancho
Surungo de rancho tudo pode acontecer
De chão batido, à luz de candeeiro
Gaita, violão e pandeiro até o dia amanhecer)
Me apronto pras bailantas vou entiar umas percantas
Ah! vai ser aquele estouro
Mudei o rumo da prosa ao ver a morena rosa
No baile das negra touro
Já me fez perder a linha quando vi a mariquinha
Naquele seu vai e vem
A Mariana com seu jeito já foi metendo respeito
Cá Candoca me botei
Tenho instinto candongueiro pra farrear eu sou parceiro
To com fama de medonho
Vou bailar de cola atada lá no baile de ramada
E bate coxa no totonho
A Doralice estava vindo dona de um sorriso lindo
Dedicada pro amor
Fui chegando pelas beira pra fazer rodar morena
Na bailanta do Tio Flor.
Alexandre de Menezes Leal/Alexandre Antonov
Um piazito criado em estância
Ganhou de herança uma gaita afamada
Se foi ao mundo pra ganhar a vida
Tocando cordeona em bolicho de estrada
Por esses pagos tocando de graça
Tragos de cachaça ou qualquer trocado
Puxando fole ficou falado
Formando entrevero pelo povoado
(A gaita velha levanta poeira
No xote e rancheira, bugio, vanerão
O fole véio pior que peneira
É uma polvadeira em bailes de galpão)
Sempre faceiro, medonho e pachola
Não vai embora sem umas tocar
Pelos farranchos arruma cambicho
E faz bonito pra indiada dançar
De chão batido à luz de candeeiro
Faz o fandango ficar abagualado
Puxando fole ficou falado
Com aquela gaita do fole furado
Alexandre de Menezes Leal
Quem não conhece o Rio Grande do Sul
Está convidado a se chegar neste rincão
Venha deslumbrar-se dos encantos deste estado
E cultivar a mais pura tradição
Andar cedinho nas campinas orvalhadas
Ouvir melodias nos acordes do violão
Sorver um mate cevado de amizade
Entre os valores que nascem do coração
(Vem ver, o Rio Grande te espera
Vem ver, que aqui se vive feliz
Vem ver, a essência dos gaúchos
Venha sem luxo pro sul deste país)
Uma província, uma querência de encantos
De muitos fascínios e belezas naturais
A bela serra dos seus vales e montanhas
De sua paisagem bordada por parreiras
Linda campanha dos campos e coxilhas
Missões de um canto que florescem os ervais
O alto Uruguai demarcando a fronteira
Lagoa dos Patos esverdeada por juncais

